Estava lendo o livro A Coragem de Ser Imperfeito, da Brené Brown, e comecei a refletir não só sobre minha própria vida, mas também sobre a trajetória de muitas pessoas e clientes que tive a oportunidade de conhecer e atender.
Hoje, como sociedade, desenvolvemos um senso de desresponsabilização assustador. O que acontece conosco ou ao nosso redor é sempre culpa de outra pessoa. É incrível como nos acovardamos, assumimos o papel de vítimas e nos tornamos “criancinhas ingênuas” à mercê de um mundo cruel e malvado.
Mas a verdade é que tudo isso decorre da nossa falta de coragem. Nós somos o real problema.
O Medo de Sair do Lugar
Ontem, tive uma conversa interessante com uma desconhecida na fila do mercado. Havia alguns adolescentes dançando e filmando na porta, e eu fiquei parada admirando tamanha coragem e desenvoltura. No mesmo instante, um pensamento veio à minha mente:
“Não é bonito, na verdade é triste que eu tenha que trabalhar exaustivamente, ser criticada constantemente, enquanto essas crianças estão ganhando milhões apenas sendo corajosas e desprovidas de autojulgamento.”
Naquele momento, uma mulher resmungou atrás de mim, dando voz a esse pensamento. Sem que eu dissesse uma palavra, ela assumiu que concordávamos e começou um discurso indignado sobre como os jovens de hoje são egocéntricos e precisam de limites.
E então, uma ficha caiu para mim:
Pessoas corajosas o suficiente para romper com as barreiras do que nos foi imposto como “nosso lugar na sociedade” são frequentemente rotuladas como egocéntricas e narcisistas. Isso acontece porque elas nos mostram que existe, sim, uma alternativa para nossas vidas. Mas essa alternativa não exige apenas coragem, exige que exponhamos nossas vulnerabilidades.
O Que Isso Tem a Ver Com Você?
Não, não estou dizendo que você precisa sair por aí fazendo dancinhas. Mas veja como isso se encaixa na sua vida:
Você, assim como eu, foi ensinada que um excelente trabalho seria suficiente para “subir na vida”. Ter uma formação superior, falar outro idioma, acompanhar a evolução tecnológica, dominar diversos assuntos para manter conversas interessantes. Mas também te ensinaram que não deveria “incomodar” e que fazer tudo isso era a receita do sucesso, certo?
E agora, aos 40 anos (ou mais), você se sente invisível. Como você, existem mais 50 na sua empresa. Tudo que te disseram que seria suficiente apenas te tornou comum. Sem destaque, sem reconhecimento, sem valorização.
O problema é que você cresceu ouvindo “trabalhe enquanto eles dormem”, e você fez isso. Mas você não correu riscos, não mostrou seu ponto de vista, aceitou o seu lugar. E agora, sente-se frustrada e velha demais para recomeçar.
Enquanto isso, a nova geração chegou sem medo de passar vergonha e de fazer o que for necessário para obter resultados. Mas a verdade é que essa geração também tem muito a aprender. E nós, Millennials, podemos somar e fazer a diferença. Podemos vencer essa ideia de guerra geracional e conquistar o nosso espaço.
Mas você vai fazer isso?
Provavelmente não. Provavelmente, vai se ressentir e esperar até ser substituída por alguém que não tem medo de ser imperfeito.
A Ilusão do Reconhecimento
Você idealizou uma realidade onde seu chefe, marido, amigos, deveriam reconhecer o seu valor, sem que você precisasse se expor.
Recentemente, atendi uma cliente do meu programa Mentoterapia Desperte. Ela estava chateada porque sua gestão não a valorizava. Quando perguntei de que forma ela expunha seus resultados, ela respondeu que era “obrigação da gerente saber”.
Fico perplexa com esse tipo de comportamento em uma mulher de 40 anos. Isso faz sentido para um adolescente de 15 que ainda não sabe como o mundo funciona, mas não para um adulto.
Se um funcionário meu se limita a fazer o básico do seu trabalho, ele não está fazendo nenhum grande mousse! Eu o contratei para isso. Agora, se esse mesmo funcionário vai além, resolve problemas que eu nem sabia que existiam, mas não dá visibilidade ao que faz, como eu, como gestora, poderei reconhecê-lo?
Trabalhar bem é o mínimo esperado. Se você entrega muito além do esperado e não é valorizada, então por que ainda está nesse ambiente esperando reconhecimento cair do céu?
O Mundo É dos Corajosos
A vida, o universo, Deus… sempre beneficiarão os corajosos. Aqueles que rompem com a mediocridade, deixam o autojulgamento de lado e encaram suas vulnerabilidades.
Coragem de estar insatisfeito não é apenas reclamar. É tomar uma atitude para resolver o problema. Como gestora, um funcionário que reclama pelos cantos não me serve. Ou ele tem coragem de se abrir e entender o motivo real de não ser reconhecido, ou ele será apenas mais um na multidão.
Quero deixar um último exemplo prático. Em uma grande empresa onde trabalhei, entrei em um setor com mais de 20 pessoas, muitas delas há cinco anos sem aumento ou promoção. Nos primeiros meses, percebi processos ineficientes. Conversei com meu gestor e sugeri melhorias. Ele me autorizou a investigar, desde que não atrapalhasse minhas funções.
Ao final de um ano, recuperei R$ 19 milhões em contas judiciais paradas e criei um novo processo, economizando R$ 5 milhões anuais.
Depois de um ano, fui promovida. Em três anos, fui promovida de novo. Até que…
Bom, essa é uma história para outro dia.
Mas a pergunta que fica para você é:
Você tem coragem de romper com a mediocridade e assumir o protagonismo da sua vida?